Atividade: Estudos de Casos Clínicos

 

O LIVRO DA MINHA VIDA - ESTUDO DE CASO EM TERAPIA POR CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO (TCR) DE UMA CONTADORA DE HISTÓRIAS.

 

MARÍLIA ZAMPIERI

ITCR – Campinas

 

Alice (26) trabalhava como contadora de histórias e professora de teatro e morava há um ano com seu namorado Mario (28), engenheiro. Morava em uma cidade a cerca de 100 quilômetros da cidade de seus pais, João (64) e Maria (57), desde que fora admitida na universidade. Seu irmão Pedro (37) morava na mesma cidade que os pais, e a irmã Julia (34) morava em outro país. A cliente queixou-se de se sentir angustiada, chorar diariamente, e relatou sentir muita vontade de ajudar os pais a viver bem, embora não soubesse como fazê-lo. A História de Contingências de Reforçamento (CR) vivida por Alice apontou que ela ouvira, com muita frequência, sua mãe dizer que estaria com sua “missão” cumprida quando Alice completasse dezoito anos. Além disso, a condição financeira da família sempre foi limitada, e Alice identificava que o pai sofrera privações para poder proporcionar estudo de qualidade aos filhos. Estes dois eventos representam a função que os comportamentos dos pais exerceram sobre Alice: foram provedores financeiros, ao mesmo tempo em que contribuíram para um intenso sentimento de culpa em Alice, pois ela interpretava que os tivesse privado de ter uma vida mais confortável e com menos responsabilidades. Conforme outras CR da vida da cliente foram investigadas, a psicoterapeuta identificou sentimentos e comportamentos de responsabilidade generalizados e excessivos. Os comportamentos de Alice eram mantidos prioritariamente por reforçamento negativo: ela evitava emitir comportamentos que pudessem desagradar o outro ou produzir reprovação. Isso ocorria de forma excessiva, a ponto de privar Alice do contato com os reforços positivos disponíveis em seu ambiente. Os objetivos iniciais do processo psicoterapêutico foram levar Alice a: discriminar mais precisamente as CR que haviam operado em sua infância e convívio familiar; identificar o predomínio de comportamentos de fuga-esquiva em seu repertório comportamental; identificar a disponibilidade de reforçadores positivos em seu ambiente e o repertório comportamental já instalado para produzir tais reforçadores. A metáfora utilizada pela psicoterapeuta ao levar Alice a fazer novas análises sobre sua vida era de que Alice estava acrescentando novas páginas ao livro de sua vida. A construção de metáforas foi uma das formas mais utilizadas pela psicoterapeuta para expor as análises funcionais à Alice. À medida que Alice conseguia fazer novas análises sobre o padrão de interação familiar, bem como quais CR tinham contribuído para que tal configuração se instalasse, alguns sentimentos aversivos foram amenizados. Além disso, Alice ficou mais sensível a análises sobre as CR do presente, de tal forma que outros objetivos psicoterapêuticos puderam ser estabelecidos, tais como: fortalecimento de comportamentos assertivos nas relações e aumento da variabilidade comportamental, principalmente no relacionamento afetivo e nas interações com seus pais. O processo psicoterapêutico continua em andamento.

 

Palavras-chave: Discriminação; culpa; comportamentos assertivos; metáfora; Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR).