Atividade: Estudos de Casos Clínicos

COMPORTAMENTOS IMPULSIVOS COBERTOS POR TAPETES SOCIAIS: UM ESTUDO DE CASO SOBRE ABUSO DE SUBSTÂNCIAS PELO MODELO DA TERAPIA POR CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO (TCR)

LUCIANA PELLIZZARO NAINE

ITCR - Campinas

 

O objetivo do presente trabalho é apresentar um estudo de caso envolvendo queixas de ansiedade, abuso de substâncias psicoativas e sua relação com a História de Contingências de Reforçamento (HCR) do cliente. Melvio (29) chegou à psicoterapia relatando “crises de ansiedade muito fortes” e “medo de morrer”, que tinham se iniciado há seis anos. Ao final da primeira sessão, o cliente relatou o uso de cocaína e ingestão de grande quantidade de bebidas alcoólicas, concomitantes a noitadas, gastos excessivos de dinheiro e, algumas vezes, acidentes automobilísticos que colocavam em risco sua integridade física. Melvio disse não relacionar o abuso de substâncias e a queixa trazida. Quando as situações de perigo chegavam ao conhecimento de pessoas próximas, poucas vezes eram consequenciadas de forma aversiva mas, pelo contrário, produziam atenção na forma de preocupação voltada para a saúde do cliente e sem solicitação de explicações. Criado por uma mãe que descrevia  como “depressiva” e um  pai “permissivo”, Melvio cresceu em um ambiente abundante de reforçamento não contingente à emissão de comportamentos pré-selecionados, repleto de regalias financeiras, e com escassez de consequências aversivas produzidas pela emissão de respostas indesejadas, o que não propiciou o desenvolvimento de um repertório satisfatório de resolução de problemas e a produção de sentimentos de  autocontrole e responsabilidade, além de produzir dificuldades na avaliação dos próprios comportamentos, especialmente aqueles que lhe produziam sofrimento. Na adolescência se destacou tocando instrumentos, época em que começou a fazer parte de uma banda e a utilizar substâncias psicoativas, especialmente cocaína e álcool. Com o tempo, passou a ter dificuldades em controlar os níveis e a frequência de consumo, a abandonar outras atividades que não eram relacionadas ao uso, especialmente as esportivas nas quais havia se destacado, além de persistir no uso da substância a despeito de consequências claramente nocivas, principalmente relacionadas a perdas profissionais. Nos lugares em que o cliente transitava com a banda e por intermédio dela, tais comportamentos não só eram aceitos, mas passíveis de comentários de admiração e atenção. Assim, apesar de tal repertório apresentar-se como indesejado por grupos do convívio do cliente, produzia reforços sociais nos ambientes ligados à música e à vida noturna frequentados por Melvio, o que impedia a discriminação de seus déficits e excessos e das dificuldades que isso acarretava. Os sentimentos de ansiedade apareciam exclusivamente após situações de abuso de substâncias e a hipótese era a de que eram provavelmente subprodutos dessas CR, que mesmo não produzindo consequências aversivas por parte de pessoas próximas, tinham uma história pregressa de riscos à vida e perdas importantes no campo profissional do cliente. A observação e manejo de possíveis relações entre variáveis ambientais e respostas de Melvio tornaram possível a construção de análises funcionais que permitiram o planejamento de intervenções psicoterapêuticas que tiveram como principais resultados : descrição de  situações que produziam discriminação de que as crises identificadas como “pânico” e “ansiedade” eram episódios emocionais com componentes operantes e respondentes relacionadas a possíveis consequências aversivas do uso de drogas; conversas com a família sobre suas dificuldades de controle diante das drogas; retomada da prática de esportes; assiduidade no trabalho com recebimento de promoções, entre outros.

Palavras-chave: Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR); abuso de substâncias; ansiedade.