Atividade: Estudos de Casos Clínicos

 

“TUDO ME É LÍCITO, MAS NEM TUDO ME CONVÉM”: ESTUDO DE CASO EM TERAPIA POR CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO (TCR)

 

Florença Lucia Coelho Justino

ITCR – Campinas

 

Vivian (44) ocupava um cargo de grande importância dentro de uma carreira jurídica, como funcionária pública, e estava neste cargo há quatro anos. Era casada e não tinha filhos, uma vez que fora acometida por falência ovariana precocemente. Lucas (44), o marido de Vivian, também era funcionário público no mesmo órgão que a esposa e ocupava um cargo inferior ao dela. A cliente queixou-se de estar excessivamente irritada com o trabalho e que estava começando a perceber uma sensação de esgotamento. Além disso, Vivian relatou que apenas aparentava estar bem em algumas situações e que, “se apertasse um botão, explodiria”. A História de Contingências de Reforçamento (HCR) experienciada por Vivian revelou que a cliente não foi poupada do contato com os eventos aversivos que aconteciam, uma vez que ela relatava que nunca fora tratada como criança e teve que lidar com a morte da mãe (ocorrida aos 12 anos da cliente) de maneira equivalente à que os irmãos adultos lidaram. A cliente ainda relatou que ela e os irmãos foram “gerados” e não educados, referindo-se ao fato de que cada um deles aprendeu com as próprias experiências e com as CR que estavam em operação na vida de cada um após o falecimento dos pais, sem que alguém exercesse uma função de orientá-los e oferecer-lhes suporte. Portanto, a partir da HCR e de outras CR em operação na vida de Vivian investigadas pela psicoterapeuta, foi possível constatar que, a partir do contato com as CR, Vivian aprendeu a reagir e a ficar sob controle de estímulos que eram de “sobrevivência” para ela, ou seja, aprendeu a responder prioritariamente às CR com função aversiva, mais do que às CR em que prevalecesse o reforçamento positivo. A cliente apresentava baixa variabilidade comportamental para lidar com os eventos e situações do dia a dia; reagia aos problemas de forma autoritária e arrogante, sob controle de estimulação aversiva que produzia sentimentos de insegurança,  e se comportava prioritariamente sob controle da regra de que tudo deveria estar sempre resolvido. Ficou evidente ainda o déficit de discriminação de Vivian em relação aos estímulos antecedentes das CR que estavam em operação no trabalho e no relacionamento com o marido. Os objetivos do processo psicoterapêutico incluíram: levar Vivian a discriminar os antecedentes componentes das CR em operação, ou seja,produzir uma melhor discriminação do ambiente; ampliar a variabilidade comportamental da cliente para lidar com situações potencialmente aversivas; fortalecer comportamentos que fossem mantidos por reforçamento positivo e enfraquecer os excessos de comportamentos mantidos por reforçamento negativo. Os procedimentos utilizados pela psicoterapeuta foram: análise e descrição das CR em operação; descrição dos eventos da história de CR que produziram os padrões atuais; apresentação de modelos e de instruções verbais de respostas alternativas; e identificação das consequências produzidas pelos comportamentos que a cliente emitia. O processo psicoterapêutico de Vivian encontra-se em andamento.  A cliente passou a: discriminar que existiam diferenças entre os eventos aversivos cotidianos e que cada um deles exigia uma variação de resposta; e a ficar sensível aos efeitos que a emissão de respostas com topografia autoritária e arrogante produziam nas suas interações cotidianas.

 

Palavras-chave: variabilidade comportamental; déficit de discriminação; Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR).