Atividade: Estudos de Casos Clínicos

 

“MAMÃE MORREU E EU NÃO QUERO FALAR SOBRE ISSO”: ESTUDO DE CASO EM TERAPIA POR CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO (TCR)

 

DANILA SECOLIM COSER

Instituto de Psicologia Comportamental da Baixa Mogiana (IPC) - Mogi Mirim/SP

 

Renata Cristina Gomes

ITCR – Campinas

Angélica (09) cursava o 5º ano do Ensino Fundamental quando a professora sugeriu a seu pai, Henrique (48), que a encaminhasse para psicoterapia. A professora preocupava-se, pois um ano se passara desde que a mãe de Angélica havia falecido em decorrência de câncer e a menina não falava (e nunca havia falado) a respeito. A professora observou que ela também estava excessivamente próxima dos meninos na escola, evitando o contato com as outras meninas.  A cliente morava com o pai, que trabalhava em casa, e com um irmão, Anderson (18), que estava fazendo cursinho pré-vestibular e passava quase todo o tempo estudando. A família era budista e descendente de japoneses. A análise de Contingências de Reforçamento (CR) passadas e atuais operando na vida de Angélica evidenciou que suas interações sociais eram limitadas, especialmente aquelas relacionadas à expressão de sentimentos, de forma que tais comportamentos não eram evocados e selecionados. Mesmo no convívio familiar diário, pouco se falava sobre sentimentos e ela não tinha oportunidade de observar os familiares expressando-os. Durante o convalescimento da mãe, não conversaram a respeito. Quando a mãe faleceu, as pessoas mais próximas (o pai, inclusive) não choraram no velório e, embora o pai se emocionasse com facilidade em sessão ao falar a respeito da perda da esposa, ele admitiu que Angélica nunca o vira chorando. Tampouco era prática comum perguntar a Angélica a respeito do que sentia. Uma perda tão significativa como a sofrida pela cliente e sua família em geral desencadeia o processo que conhecemos como “luto”. Comportamentalmente, o que se observa durante o luto corresponde à variabilidade de respostas apresentadas pelos indivíduos diante de uma alteração abrupta nas CR na qual uma importante fonte de reforçadores (e de contexto para emissão de respostas que produziam reforçadores) é removida. Durante o processo natural de luto é esperado, entre outras respostas, que o indivíduo expresse sofrimento de maneira intensa e por isso a aparente indiferença emocional da cliente era preocupante. Foram objetivos psicoterapêuticos identificar as CR que mantinham o silêncio de Angélica sobre o falecimento da mãe e a preferência pelo grupo de amigos do sexo masculino, bem como facilitar a expressão de seus sentimentos em relação à ausência da mãe, tanto nas sessões de psicoterapia como em casa. Foram realizadas intervenções com a cliente e com pessoas relevantes de sua família (que foram orientadas, por exemplo, quanto à necessidade de validarem os sentimentos da cliente por meio de autorrelatos de sofrimento ou de expressões das emoções que a situação provocava em cada um). Deveriam, adicionalmente, criar situações (programar SDs) que aumentassem a probabilidade de Angélica falar sobre a mãe, a morte. A doença, os seus sentimentos a respeito etc. As sessões iniciais foram muito difíceis para Angélica, que se emocionava com qualquer menção mínima à mãe, e a psicoterapia foi prematuramente interrompida. Como não houve uma sessão de despedida, a psicoterapeuta enviou uma carta para a cliente, descrevendo toda a dificuldade que ela imaginava que Angélica vivenciava com a ausência da mãe, disponibilizando-se a ajudá-la quando ela desejasse falar sobre o assunto e agradecendo pelos momentos compartilhados em sessão.

Palavras-chave: Luto; Terapia com crianças; Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR).