Atividade: Estudos de Casos Clínicos

 

“DO IDEAL AO REAL: UM ESTUDO DE CASO CLÍNICO SOBRE ANSIEDADE EM  TERAPIA POR CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO (TCR)”

 

CAMILA MAGNET ROTTA

ITCR – Campinas

Ana (17) cursava o 3oano do Ensino Médio em um colégio particular e morava com  suas irmãs (19 e 15 anos) e seus pais. A queixa descrita pela mãe envolvia sentimentos de ansiedade de Ana, inclusive relacionados à escola: “Ela sente tremor, suor, acha que vai desmaiar, fica com ânsia de vômito”; “Chora pra tudo, muito frágil”. A mãe relatou que Ana passou por várias Contingências de Reforçamento (CR) aversivas nos anos anteriores, que envolveram problemas de saúde de Ana (H1N1, seguido por um quadro de cegueira temporária) e dos familiares. No 8oano, a cliente quase não freqüentou a escola devido a suas condições de saúde; realizava suas atividades acadêmicas em casa. No ano seguinte (2014), ao voltar para a escola, começou a apresentar alguns sintomas de ansiedade devido à dificuldade de integração social e assim ocorreu uma sucessão de acontecimentos aversivos escolares que deflagrou o quadro de ansiedade. A história de Contingências de Reforçamento (CR) sugere que Ana, ao entrar em contato com contingências aversivas (sociais, acadêmicas ou que envolvesse a resolução de problemas), era protegida de tais estímulos a partir da emissão de comportamentos de outras pessoas ou do seu distanciamento temporário de tais contingências (comportamento de fuga-esquiva indesejado), o que produzia um alivio momentâneo, porém, não alterava essas contingências (as quais seria novamente exposta) e fortalecia sentimentos de insegurança. No processo psicoterapêutico, Ana descrevia sentimentos aversivos sem relacioná-los com as CR correspondentes, o que indicava a baixa discriminação que apresentava sobre as CR em operação. Outra dificuldade comportamental apresentada envolvia a emissão de muitos comportamentos sob controle de autorregras disfuncionais sobre as contingências. Muitas delas evidenciavam condições “ideais” no manejo das mesmas, porém, de forma pouco acessível e eficiente. Assim, diante do significativo déficit no repertório de remoção/amenização de estímulos aversivos em operação na sua vida, Ana era dependente de que outras pessoas produzissem tais consequências, fortalecendo sentimentos de insegurança e baixa autoestima. Os objetivos psicoterapêuticos foram: desenvolver repertório eficiente (real) para lidar com contingências aversivas; produzir discriminação compatível com as contingências passadas e atuais e a relação de tais contingências com seus sentimentos; favorecer o desenvolvimento dos sentimentos de autoestima e autoconfiança. Os procedimentos psicoterapêuticos envolveram a análise e descrição de CR passadas e atuais, assim como a análise do déficit de repertório apresentado e sua relação com as autorregras sobre o “mundo ideal”: se o ideal ocorresse, não seria necessário a variabilidade comportamental exigida mediante contingências aversivas. Ana passou a discriminar corretamente a relação entre os termos da tríplice contingência (A-R®C) e a ficar sob controle de tal discriminação, o que diminuiu, naturalmente, o controle exercido por suas autorregras; diminuiu a emissão dos comportamentos de fuga-esquiva ineficientes ao desenvolver repertórios mais desejados: estabeleceu uma melhor relação com a escola, tanto acadêmica quanto social; intensificou outras exposições sociais; passou a lidar de forma eficiente com outras contingências aversivas; começou a desenvolver sentimentos e comportamentos de autoconfiança e autoestima; diminuiu a intensidade e freqüência dos sintomas de ansiedade.

Palavras-chave: Autorregras; ansiedade; Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR).