Atividade: Comunicação oral (Estudo de caso clínico)

 

“EU RIO DO PASSADO E ESPERO O FUTURO COM A FACA NA MÃO”: ESTUDO DE CASO EM TCR DE UMA CLIENTE TRANSEXUAL

 

SAMIR VIDAL MUSSI

 

Patrícia Panho Ferronato

 

ITCR-Campinas

 

Carol (29) morava sozinha quando iniciou a psicoterapia. Aos 22 anos, deixou a família em uma cidade no interior do Nordeste e se mudou para uma capital do Sudeste. Cursava o sexto período de Pedagogia e trabalhava como auxiliar de educação inclusiva em uma escola municipal. Carol nasceu do com sexo masculino e, por volta dos 15 anos de idade, assumiu-se transexual. Desde então, passou a fazer uso de hormônios para o processo de transição de gênero. Sua queixa principal dizia respeito a um sentimento de baixa autoestima, conflitos nos relacionamentos e mal-estar com a condição de transexualidade. As dificuldades observadas estavam relacionadas ao excesso de respostas de fuga/esquiva, ao excesso de respostas sob controle de autorregras disfuncionais e ao déficit em avaliação de consequências em curto e longo prazo. Através da História de Contingências de Reforçamento (HCR) foi possível observar que o excessivo e longo período de exposição a eventos aversivos pode ter contribuído para a aprendizagem de comportamentos de fuga/esquiva pela cliente. Somadas a isso, descrições dessas contingências aversivas (autorregras disfuncionais) feitas pela mesma se tornaram Sds para respostas de fuga/esquiva e agressividade em alguns contextos. Rir do passado e estar com a faca na mão foi uma frase utilizada pela cliente. Também serviu de título para este trabalho por resumir o estado frequente de vigília da mesma. De acordo com a História de Contingências de Reforçamento (HCR) da cliente, quando não se sabe de onde vem uma agressão, estar alerta e preparada para o ataque era uma questão de sobrevivência. A escassez de reforçadores, principalmente ligados a ser tratada como mulher, constituiu em uma operação estabelecedora, tornando a adequação do corpo físico ao gênero um reforçador muito importante para Carol. Isso pode ter contribuído para a baixa frequência de respostas de avaliação de consequências. Os objetivos psicoterapêuticos foram: organizar o processo de Cirurgia de Redesignação Sexual (CRS); reduzir o excesso de respostas sob controle de autorregras com consequências disfuncionais; reduzir o excesso de respostas emocionais eliciadas durante as lembranças da infância; aumentar as respostas de avaliação de consequências; aumentar a discriminação do ambiente privado; aumentar a frequência de respostas sobre controle do ambiente privado. Os procedimentos psicoterapêuticos consistiram em: instruções, modelação, ensaio comportamental, descrição de contingências, uso de metáforas, treino de discriminação. Tais procedimentos eram aplicados em sessão e programados em atividades para casa. Após cerca de doze meses de psicoterapia, Carol já havia realizado a CRS, relatava se sentir bem com o próprio corpo e segura para se comportar em função do ambiente privado. Questionava-se quanto a algumas autorregras estabelecidas, permitia ser cuidada pelo namorado e demonstrava segurança quanto aos sentimentos do mesmo. Alguns comportamentos de esquiva ainda permaneciam, porém Carol já conseguia discriminá-los. Espera-se, com este estudo, que novas práticas culturais possam ser adotadas na construção de uma sociedade mais preparada para lidar com pessoas transexuais.


Palavras-chave: Terapia por Contingências de Reforçamento
(TCR); transexualidade; estudo de caso; análise do comportamento; transtorno de identidade de gênero.

 

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