ADOLESCÊNCIA – A DIFÍCIL TRANSIÇÃO QUANDO O AMBIENTE É REPLETO DE REGRAS DOS PAIS. ESTUDO DE CASO EM TERAPIA POR CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO (TCR)

 

VALÉRIA BERTOLDI PERES

ITCR – Campinas

 

Bia (15) era filha única de Gisela (50) e Pedro (51). Cursava o primeiro ano do Ensino Médio em uma escola particular. O pai era funcionário público e a mãe não trabalhava “para poder cuidar da filha”. Bia fazia tratamento psiquiátrico e tomava antidepressivo desde os 10 anos de idade. Gisela apresentou a queixa de que Bia era muita ansiosa e tinha sofrido bullying na escola. Disse também que Bia não tinha amigos e ficava sozinha nos intervalos das aulas na escola. As queixas apresentadas pela cliente foram de ter poucos amigos e que achava que não gostavam dela. Bia também se queixou das constantes brigas e discussões entre os pais e que ela e o pai “precisavam fazer tudo do jeito da mãe”. Bia disse que brigava com a mãe e respondia, mas acabava cedendo e fazia o que Gisela queria. As principais dificuldades da cliente eram relacionadas às relações interpessoais: Bia só se comportava de acordo com o que sua mãe orientava; não discriminava as Contingências de Reforçamento (CR) em operação. Com isso, produzia poucos reforçadores positivos de natureza social, e seu comportamento era predominantemente mantido pelos reforços (negativos e positivos) disponibilizados por sua mãe. Bia tinha pouco repertório social e dificuldades para iniciar conversas com colegas, e para tirar dúvidas com os professores. Em sua história de CR, foi possível compreender que Bia foi muito protegida pela mãe, devido ao medo que Gisela tinha de perdê-la. Gisela parou de trabalhar para se dedicar exclusivamente aos cuidados com a filha, o que faz até os dias atuais, dificultando que a cliente desenvolvesse comportamentos sociais e responsabilidade, principalmente relacionadas com a escola. Pedro era pouco presente na educação de Bia, e seu comportamento era controlado pelas regras estabelecidas pela esposa. Os objetivos psicoterapêuticos foram: conscientizar a cliente das CR atuais às quais estava exposta, e as consequências indesejadas do excesso de controle pelas regras da mãe; instalar classes de comportamentos para produção de reforçadores positivos, por meio do desenvolvimento do repertório social e de autonomia de Bia; realizar orientações com os pais para analisar as CR em operação e enfraquecer as regras excessivas que controlavam o comportamento de Bia. Durante o processo psicoterapêutico, a psicoterapeuta analisava com a cliente cada situação, para que ela discriminasse: a) as CR coercitivas às quais estava exposta; b) quais eram as consequências das suas ações, ou seja, o predomínio de reforço negativo; e c) como poderia mudar as situações que lhe eram aversivas. A psicoterapeuta apresentava instruções verbais para desenvolver e fortalecer os repertórios de interação sociais, fazendo com que Bia se aproximasse dos colegas e produzisse reforço social. Foram realizadas várias sessões de orientação dos pais, as quais aconteciam separadamente, uma vez que o casal não aceitava realizar tais sessões juntos. Bia ampliou o círculo de amigos, inclusive propondo programas com os colegas. Quanto à mãe, ela ainda apresenta algumas dificuldades significativas: ela não consegue deixar de realizar as coisas pela filha e se recusa a passar por um processo psicoterapêutico.

Palavras-chave: Adolescente; controle coercitivo superproteção materna; orientação de pais; Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR).