Atividade: Sessão Coordenada (Estudo de caso clínico)

 

Impactos do estilo parental sobre o desenvolvimento de repertórios de cooperação e sentimentos de autoestima do filho: estudo de caso sob enfoque da Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR)

 

VALÉRIA CRISTINA SANTOS MENZANNO

ITCR-Campinas

 

Este estudo visa, além de apresentar o caso, suas análises e procedimentos adotados, realizar a discussão do uso de procedimentos, pelos pais, de punição e de coerção sobre o desenvolvimento de repertórios de cooperação e sentimentos de baixa autoestima do filho. Téo (6) era o filho caçula de Ana (32), irmão de Bia (9) e enteado de Alex (30). Téo estudava em escola particular, assim como a irmã; a mãe era funcionária de alto cargo em multinacional e o padrasto, advogado. O cliente foi encaminhado para psicoterapia pela escola e, posteriormente, também pelo médico neurologista. As queixas eram de comportamentos impulsivos e agressivos, falta de limites, desobediência e desajustamento social. No início, estas eram queixas vindas da escola, mas os pais recusavam-se a aceitar, uma vez que acreditavam que tais demandas tinham que ser alvo de intervenção na própria escola. Certa data, a escola solicitou novamente acompanhamento médico e psicológico, caso contrário convidaria o aluno a se retirar da escola. Os pais não discordavam das queixas relatadas pela escola, mas acreditavam ser parte da "personalidade" de Téo, assim como herança genética da mãe e falta de limites dos avós maternos nos cuidados com as crianças, Téo e Bia. As dificuldades identificadas pela psicoterapeuta foram: ambiente familiar com escassez de reforços positivos disponíveis para a criança; ausência dos pais; intolerância dos pais; as necessidades dos adultos eram prioritárias em relação às necessidades de Téo; uso de coerção e aplicação de punição. Os pais puniam os comportamentos de não atender aos pedidos deles, agitação, agressividade e brigas com a irmã com retiradas de televisão ou outros potenciais reforçadores. Contudo, os comportamentos desejados não eram reforçados pelos pais. Os comportamentos indesejados emitidos na escola, ora eram punidos em casa com castigos, broncas; ora os pais o buscavam na escola quando eram chamados e Téo acabava passando o dia com o pai sem que nenhuma consequência fosse aplicada. E então o uso da coerção entrava em cena em forma de ameaças psicológicas e físicas. Téo, de fato, apresentava comportamentos indesejados nos ambientes escolar e familiar, contudo relatava sofrimento, raiva, sentimentos de baixa autoestima, "vontade de sumir". Apresentava também queixas em relação aos pais, tais como falta de atenção, de cuidado e de atividades prazerosas. Diante destas contingências de reforçamento (CR) em operação, foram propostos os seguintes procedimentos: estabelecimento de adequado controle de estímulos, pelos pais e escola, para evocar comportamentos desejados de Téo; levar Téo a discriminar quando os comportamentos agressivos iriam ocorrer (que situações aumentavam a probabilidade de ocorrer agressão); instruções verbais para o cliente, pais e escola sobre como proceder para evitar a emissão de comportamentos agressivos; desenvolvimento de padrões de comportamentos assertivos que produziriam como consequência atenção e afeto; uso de economia de fichas. Também foram realizados procedimentos com os pais, em sessões, com o objetivo de discutir os efeitos da coerção e punição e propor alternativas de comportamentos mais desejados dos pais na relação com o filho. Dentre alguns resultados alcançados com o manejo destas CR estão a diminuição dos comportamentos agressivos de Téo, busca de atenção e afeto de maneira mais desejada e eficaz. Tais alterações foram observadas durante um período curto, pois os pais eram inconsistentes no seguimento dos procedimentos de instalação e manutenção dos comportamentos de Téo, além de continuarem com o uso excessivo de procedimentos de punição. Os pais desistiram do tratamento psicoterapêutico, provavelmente com a função de fuga-esquiva de atender a demandas apresentadas pelas análises feitas pela psicoterapeuta, e mudaram a criança de escola pela segunda vez durante este processo.

 

Palavras-chave: Terapia por Contingência de Reforçamento (TCR); terapia com crianças, orientação de pais, efeitos do controle aversivo.