Atividade: Sessão Coordenada

 

REGRAS, AZAR E BAIXA RESILIÊNCIA: ESTUDO DE CASO EM TERAPIA POR CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO (TCR)

MARISA RICHARTZ FELICIO

Consultório Particular – Curitiba/PR

 

Daniel (23) se queixou de que estava com dificuldades no seu relacionamento e que “não sabia” se estava namorando, justificando-se a partir do que acreditava serem critérios definidores do término de uma relação. Isso indicou à psicoterapeuta a possibilidade de um déficit no responder sob controle das contingências de reforçamento (CR) em operação e um excesso de comportamento sob governo de regras. Daniel relatou, após quatro sessões, que o relacionamento “terminou de vez” e que, na ocasião, a namorada disse que de fato havia terminado há uma semana. Eram exemplos de autorregras, as seguintes descrições de CR feitas por Daniel: “Se é namorada, amigo ou família, eu devo fazer tudo para ajudar e manter o relacionamento”; “Se foi combinado de tal forma, é assim que deve ser feito, independente de qualquer condição”. Os problemas no relacionamento com a namorada geravam uma condição de privação afetiva, que resultava de déficits no repertório social apresentado pelo cliente: Daniel relatou que não tinha muitos amigos e que ficava todo tempo com a namorada. O cliente frustrava-se e reagia mal quando as situações não ocorriam em conformidade com o que descreviam suas autorregras. Em uma situação em ambiente público, ficou irritado e quase agrediu uma pessoa que usou muito papel para secar a mão no banheiro. As dificuldades do cliente foram instaladas a partir de um ambiente familiar que reforçava os comportamentos do cliente apenas quando ele se comportava de forma que era mais reforçadora para família, contexto que selecionou o responder a algumas regras e autorregras como forma de se esquivar de possíveis punições. Os objetivos psicoterapêuticos foram: desenvolver autoconhecimento, repertório social e sensibilidade às CR em operação. Foram utilizados os seguintes procedimentos: descrição da CR; emissão de SD’s sob a forma de perguntas para favorecer a discriminação de tais CR; instrução e modelação a respeito de situações sociais. Ao longo das sessões, o cliente passou a sair frequentemente à noite com amigos e iniciou outro relacionamento amoroso, no qual estabeleceu um equilíbrio maior entre controle e contracontrole com a namorada. Apesar dessas mudanças, o cliente queixava-se frequentemente que se sentia frustrado em decorrência de eventos aversivos não sinalizados que se seguiram: foi levado coercitivamente a depor e indiciado em um processo na justiça por causa de alguns comportamentos do pai (Daniel temia muito pela possibilidade de ser preso), sofreu um AVC, que deixou Daniel com dificuldades de visão. O cliente questionava porque “apenas ele” deveria fazer adaptações para viver melhor com as pessoas e chegou a descrever ideação suicida. Graças ao controle por regras, mantinha-se comportando-se com alguma   resiliência.

Palavras chave: Autorregras; resiliência; incontrolabilidade; Terapia por contingências de Reforçamento (TCR).