Atividade: Sessão coordenada

ENSINANDO CLIENTE ADULTO A LIDAR COM SUBPRODUTOS DE EVENTOS AVERSIVOS NÃO CONTINGENTES PRESENTES EM SUA HISTÓRIA: ESTUDO DE CASO EM TCR

 

LUCIANA PELLIZZARO NAINE

ITCR - Campinas

 

O presente estudo de caso ilustra as dificuldades de Saulo (30), mais velho de um casal de filhos, que chegou à psicoterapia queixando-se de desânimo, irritabilidade e ciúmes da namorada. Três meses antes de iniciar o processo psicoterapêutico, o cliente convidou a então namorada, Tatiana (23), com quem se relacionava há seis meses, para mudar-se para o apartamento dele, uma vez que a moça residia em uma república. Saulo relatava incômodo com alguns comportamentos da parceira, como não olhar nos olhos, ameaçar ir embora por qualquer motivo, a falta de comprometimento nas tarefas domésticas, além de dívidas e um convite, por parte dela, para tomar chope com um ex-namorado. Diante dessas intercorrências, as consequências apresentadas por Saulo eram longas conversas, que nunca eram apresentadas de forma consistente (por exemplo, dizia não ir mais buscar a namorada na faculdade, mas ia alegando querer ficar de bem), nas quais o cliente relatava que Tatiana parecia sequer prestar atenção. Na convivência em família durante a infância, o cliente, bem como a mãe e a irmã, estiveram expostos por anos, à apresentação de estimulação aversiva pelo genitor, em forma de ofensas e longos discursos, que eram produzidos independentemente de respostas emitidas por qualquer um deles. O pai algumas vezes chegava da rua bastante agressivo, e a família, sem ter como fugir ou se esquivar, aceitava a sanção imposta. Outras vezes chegava sorrindo e brincando. Saulo relatava que o simples som do carro do pai deixava a família em alerta, uma vez que não podiam prever quais seriam as reações dele. É possível que Saulo tenha generalizado essas respostas para outras situações de caráter adverso que ocorriam em sua vida, sentindo-se perpetuamente ameaçado e reproduzindo esses longos monólogos como único modelo que conhecia de suposta resolução de conflitos. Apesar dos relatos de ciúme da namorada, Saulo referia que tinha se comportado de maneira similar, porém menos intensa em relacionamentos anteriores, porém, dizia que como não conseguia prever quais comportamentos as parceiras poderiam emitir, era mais seguro permanecer alerta pois as pessoas sempre o surpreendiam. Em relação ao pai, mesmo anos depois de sair de casa, Saulo pagava as contas dele, que já era divorciado da mãe, e cotidianamente acertava pendências ocasionadas pelo descontrole financeiro do genitor. A apresentação de estímulos aversivos arbitrários e de forma não contingente reduz eficientemente violações às regras e garante docilidade e submissão; essas contingências em conjunto com outras em vigor na vida do cliente , prioritariamente de reforçamento negativo e punição, provavelmente produziram sentimentos de ansiedade, insegurança e baixa autoestima. Além disso, como provavelmente na história de Saulo predominou o reforçamento por respostas repetitivas (como aceitar qualquer coisa para ficar tudo bem), é mais provável que ao experimentar a situação aversiva incontrolável ele tenha generalizado para novas situações, sendo mais suscetível a não responder eficazmente em razão da falta de modelos e instruções e do déficit no repertório de operantes discriminados. Foram utilizados princípios e procedimentos básicos de Análise do Comportamento no planejamento e na execução de intervenções para superar as dificuldades do cliente, sendo os principais: identificação e descrição de contingências passadas e atuais em vigor na vida de Saulo, com o objetivo de favorecer a discriminação da relação entre os elementos da queixa, as respostas de fuga-esquiva possíveis e as complicações presentes atualmente na vida dele; manejo de condições antecedentes para que o cliente emitisse ora respostas alternativas ao seu repertório, produzindo estímulos reforçadores de maior magnitude, ora respostas já estabelecidas durante sua história de vida, conseguindo descrever maior relação entre os eventos que as antecediam e as consequenciavam, para então aumentar o seu controle sobre os eventos em operação. Os resultados obtidos sugerem a eficácia da intervenção, uma vez que o cliente retomou o contato com amigos, voltou a tocar instrumentos musicais, passou a realizar atividades de lazer sem a namorada e incentivava que ela fizesse o mesmo.

Palavras-chave: Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR); controle coercitivo; punição.