Atividade: Sessão Coordenada

 

EU CRIEI O MONSTRO. E AGORA?’ - ESTUDO DE CASO DE DESAMPARO APRENDIDO EM TERAPIA POR CONTINGÊNCIA DE REFORÇAMENTO

 

CESAR AUGUSTO CURVELLO DE MENDONÇA

 

ITCR- Campinas

 

 

Quando Carlos procurou terapia, aos 50 anos, relatou estar insatisfeito pois fazia dois anos que estava sem trabalho e, embora tivesse aberto sua própria empresa, estava encontrando dificuldades para conseguir contratos. Estava acima do peso e se recuperando de um infarto. Carlos relatou que, antes desses acontecimentos, trabalhava e morava em outra cidade e via a família durante os finais de semana. Destacou ainda que, a partir de então, voltou a ficar em casa e que com isso sua vida familiar havia se deteriorado, o que era geralmente atribuído ao fato de ele ser “pendular”. O cliente passou a ser o foco de críticas frequentes dos familiares devidas às “oscilações de humor” que ele apresentava. Sentia que havia perdido seu prestígio dentro de casa e que sua opinião nunca era considerada, embora ele fosse responsável pela manutenção financeira da casa. Frederico (30), que morava com eles, embora trabalhasse, não contribuía nas despesas. O filho mais novo, Raul (27), desempregado e que não morava com eles, julgando-se injustiçado, exigia que o pai arcasse com algumas de suas despesas. Nas sessões, o cliente relatava frequentemente problemas gerados em casa, criticava os membros da família e em seguida se apressava em justificar os comportamentos dos filhos e esposa. Embora Carlos se sentisse como mero provedor, se responsabilizava pela educação inadequada dos filhos e aceitava, ainda que contrariado, a situação em que se encontrava. Quando o cliente tentava alterar algumas destas contingências, questionando os gastos ou propondo qualquer modificação, era punido ou ignorado pela família, e passou a minimizar o convívio com eles. Ao mesmo tempo descrevia temer que, com este afastamento, fosse cada vez mais desprezado e eventualmente deixado pela família. O cliente passou a considerar que, diante da incontrolabilidade dos eventos aversivos experienciados por ele, era melhor aceitar as condições impostas para não se expor a contingências potencialmente mais aversivas. Os objetivos psicoterapêuticos com Carlos foram: ampliar a discriminação das contingências de reforçamento em operação na relação com os familiares e a função que elas tinham para ambos os lados; desenvolver padrões comportamentais funcionalmente assertivos; ajudar o cliente a avaliar sua situação profissional e buscar atividades alternativas; ajudar o cliente a procurar e se engajar em atividades com possíveis funções reforçadoras para ele. Para atingir tais objetivos, o psicoterapeuta emitia instruções verbais para que o cliente observasse e descrevesse as contingências em operação considerando o comportamento das pessoas do seu convívio. Com desenvolvimento destes aspectos, o cliente passou a reavaliar suas expectativas em relação ao trabalho e à vida familiar. Isto permitiu que Carlos entrasse em contato com novas contingências de reforçamento e buscasse novas fontes de reforçadores.

 

Palavras–chave:      Terapia por Contingências de Reforçamento, comportamentos assertivos, desamparo aprendido, fuga-esquiva.