Atividade: Sessão Coordenada

"NINGUÉM DISSE QUE SERIA FÁCIL, MAS PRECISAVA SER TÃO DIFÍCIL?": DEBATENDO CONFLITOS ENTRE A LIBERDADE E A SEGURANÇA EM UM ESTUDO DE CASO CLÍNICO EM TERAPIA POR CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO (TCR).

 

ANA CAROLINA GUERIOS FELÍCIO

Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento

Amanda (30), médica, cursava o primeiro ano de residência de um conceituado hospital em São Paulo (cidade onde dividia a moradia com uma colega) e fazia plantões em sua especialidade para complementar a renda. Era natural do Rio de Janeiro (RJ), onde moravam seus pais que eram separados. Amanda havia procurado psicoterapia há quatro anos, logo que chegou à cidade, queixando-se na época do término de um relacionamento. Ela descrevia seu sofrimento em virtude de suas tentativas frustradas de encontrar um namorado. Também foram relatadas, na ocasião, suas dificuldades na interação com a mãe, extremamente exigente e superprotetora, e com o pai, carinhoso com a cliente, porém desleixado em relação à saúde e às finanças, o que trazia preocupações constantes à cliente. Naquela ocasião, o objetivo principal da psicoterapia foi levar Amanda a observar seus comportamentos e a função destes para o outro, além de colocá-la sob controle das Contingências de Reforçamento (CR) em operação, minimizando comportamentos governados por regras. A cliente apresentou alguns ganhos com as sessões, mas logo que começou um novo namoro abandonou o processo psicoterapêutico, uma vez que as CR aversivas que a mantinham em terapia se esvaneceram. Um ano depois, Amanda retornou queixando-se de insegurança no trabalho, pois era recriminada pelos colegas por não ter feito residência e muitas vezes não saber o que fazer com os pacientes. Por outro lado, a cliente reclamava da inevitável queda em seu padrão de vida caso ingressasse na residência, pois teria que trabalhar mais horas e iria receber menos pelas atividades ligadas ao estudo. A psicoterapeuta analisava as CR em operação que produziam mal-estar na cliente, que ansiava por mais segurança em seu trabalho, mas desejava mais liberdade para escolher se e quanto deveria trabalhar para poder realizar outros sonhos, o que tinha por objetivo o desenvolvimento de autocontrole (colocar a cliente sob controle dos reforçadores de baixa magnitude já disponíveis no ambiente da cliente – passeios em parques públicos com o cachorro, encontros com amigos para tocar instrumentos, ver filmes com o namorado, além dos reforçadores naturais que se seguiam às atividades de estudo, como ter mais conhecimento e segurança para atuar no atendimento aos pacientes – que a ajudariam a esperar pelo acesso a reforçadores de magnitude maiores – viagens internacionais e jantares em restaurantes renomados, que seriam adiados pelo prazo da residência, bem como o título de especialista que permitiria que Amanda tivesse seu próprio consultório – em médio e longo prazos). Amanda optou pelo ingresso na residência, o que trouxe ganhos em sua prática como médica; no entanto, ainda se queixava muito da falta de tempo e dinheiro para realizar outras atividades. A psicoterapeuta começou, então, a analisar a história de CR da cliente, a partir da qual conseguiu identificar que muitos de seus comportamentos eram governados por autorregras disfuncionais em sua vida atual (“Eu fui criada para ser uma princesa”) e passou a rever alguns valores pessoais e de sua família de origem, ou seja, passou a ficar sob controle de novas regras (“Dá pra ser feliz com muito menos do que eu imaginava”).

 

 

Palavras-chave: Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR); orientação profissional; relacionamento afetivo; autocontrole; autorregras.