Atividade: Mesa Redonda

TERIA DOS JOGOS APLICADA À ANÁLISE DO COMPORTAMENTO

 

PROPOSTA ANALÍTICO-COMPORTAMENTAL

 

JULIO CAMARGO

UFSCar – São Carlos

 

 Verônica Bender Haydu

UEL – Londrina

 

Recursos de acesso comum (Common-pool Resources – CPRs) se caracterizam pela dificuldade de controle sobre a quantidade de pessoas que podem acessá-los e pela alta concorrência, o que significa que a apropriação de parte do recurso por um indivíduo faz com que tal parte deixe de estar disponível para as outras pessoas. A lógica por trás do acesso e da apropriação de CPRs tem sido utilizada como modelo para entender o consumo de recursos naturais renováveis e questões ligadas à sustentabilidade socioambiental. Diversos estudos experimentais e de campo apontam para a importância de práticas auto organizadas para o gerenciamento e a preservação de CRPs, o que acontece, principalmente, quando os indivíduos que fazer uso de determinado recurso podem se comunicar entre si e coordenar suas atividades de apropriação. No entanto, em situações nas quais os indivíduos fazem uso de recursos naturais de forma isolada e sem um forte controle social, tende a ocorre uma extração exacerbada, o que impede a renovação natural e a sustentabilidade do recurso em longo prazo, caracterizando, assim, o que a literatura denomina como tragédia dos comuns.  O presente estudo utilizou um jogo de CPR intitulado Dilema dos Comuns com o objetivo de avaliar os efeitos de indicativos e feedbacks sobre a quantidade de recursos extraídos por participantes que compartilhavam um recurso comum, mas trabalhavam de forma isolada entre si. Além disso, o procedimento envolveu a troca periódica de participantes experientes por novatos, de forma a avaliar se a qualidade das instruções passadas sobre o jogo afetava o consumo e a manutenção dos recursos em longo prazo. O jogo apresentava uma situação simulada de extração de recursos naturais renováveis, no caso, peixes em um oceano. Até três participantes jogavam simultaneamente, realizando escolhas individuais para a extração dos peixes, sendo cada rodada do jogo caracterizada pela escolha de 1 a 9 peixes a ser extraída do recurso comum, sendo o total obtido trocado por dinheiro ao final do experimento. Participaram do estudo 22 estudantes universitários, que foram distribuídos em três grupos: controle, indicativos e feedbacks. O tamanho de cada grupo variou de acordo com o número de participantes que compareceram à sessão experimental e com o número de rodadas que cada grupo levou para esgotar os recursos. O delineamento contou com três fases: linha de base, intervenção e reversão. Na fase de linha de base foi estabelecido um critério de redução contínua na quantidade de peixes disponíveis para o início da fase de intervenção. As intervenções foram aplicadas a dois dos três grupos, sendo que um dos grupos passou a ter acesso a um indicativo da quantidade de peixes disponíveis e outro grupo passou a receber feedbacks sobre o consumo após as rodadas em que havia a redução na quantidade de peixes. Para o grupo controle não foi aplicado qualquer tipo de intervenção. A fase de reversão se caracterizou pelo término das intervenções para os grupos indicativos e feedbacks. Analisou-se a quantidade de recursos extraídos individualmente e pelos grupos a cada rodada e as respostas verbais dos participantes experientes ao instruírem os novatos. Os resultados mostraram que as intervenções aplicadas foram efetivas para a redução em curto prazo na quantidade de recursos extraídas pelos membros dos grupos indicativos e feedbacks, não se observando mudanças significativas no padrão de extração apresentado pelo grupo controle. Uma análise mais detalhada revelou que a qualidade das instruções foi uma variável importante para a manutenção do padrão estabelecido na intervenção e para a manutenção dos recursos em longo prazo, o que foi observando, principalmente, no grupo feedbacks. Os dados obtidos podem servir como um importante subsídio para se pensar em pesquisas aplicadas, intervenções e políticas públicas ligadas à preservação de recursos naturais renováveis de acesso comum e à sustentabilidade.