Atividade: Comunicação Oral (Estudo de Caso Clínico)

DIALOGANDO COM O “MESTRE DOS MAGOS”: A SENSIBILIDADE DO
PSICOTERAPEUTA EM RELAÇÃO ÀS DIFICULDADES DO CLIENTE - ESTUDO DE CASO EM TERAPIA POR CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO (TCR)

VERÔNICA APARECIDA EXPOSITO ALVES DA CUNHA

Valéria Bertoldi Peres

Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento

 

João (19) foi encaminhado ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) em Julho de 2015; após duas tentativas de suicídio importantes; a primeira tentativa ocorreu em 2013 e a segunda semanas antes do encaminhamento. Filho único, morava com os pais e não trabalhava. Ainda em julho de 2015, iniciou acompanhamento com psiquiatra e psicoterapeuta no CAPS. Contudo, foram identificados pontos discrepantes entre a avaliação médica e a análise de contingências de reforçamento (CR) realizada pela psicoterapeuta: padrões comportamentais que na interpretação do modelo médico indicavam sintomas negativos característicos de psicose; sendo o cliente, inclusive, medicado com antipsicótico; tratavam-se de déficits de repertório ou excessos comportamentais importantes, desenvolvidos, principalmente, por reforço livre. Por exemplo, o cliente não conseguia estabelecer um diálogo inteligível e sempre solicitava à mãe que narrasse os fatos; apresentava preferência apenas por temas de conteúdo medieval, gótico ou agressivo, com longos períodos de isolamento social. Assim, nas primeiras sessões, a postura da psicoterapeuta frente às preferências do cliente foi essencial para a construção de um ambiente reforçador para ele, o que possibilitou a adesão e o engajamento do cliente no processo psicoterapêutico. Para isto, foi necessário que a psicoterapeuta aumentasse seu conhecimento sobre os temas reforçadores para João como, por exemplo, o seriado “Caverna do Dragão”, nomes de banda de Rock e jogos de RPG. Assim, inicialmente, as sessões basearam-se no diálogo a respeito desta lista de reforçadores, tendo em vista que eram temas que o cliente dominava e, portanto, verbalizava a respeito com mais facilidade. Em seguida, o uso de tais temas viabilizou a elaboração dos seguintes objetivos: construir metáforas, com o intuito de descrever as CR em operação; instalar e modelar o comportamento de relatar os fatos (tatos verbais apropriados); treino comportamental objetivando desenvolver repertório para que o cliente conseguisse verbalizar adequadamente nas consultas médicas, sozinho. Ao longo das sessões, diminuiu-se gradualmente (fading out) o uso dos temas reforçadores iniciais e novos temas relacionados à pesquisa sobre a história de CR do cliente foram introduzidos (fading in). Atualmente, o cliente já descreve fatos de seu cotidiano e mostra-se participativo na construção de procedimentos, além de já estar em processo da retirada do antipsicótico e revisão de seu diagnóstico psiquiátrico. Diante disto, pode-se afirmar que tais conquistas foram possíveis somente porque a psicoterapeuta ficou sob controle dos comportamentos do cliente e não sob o controle de regras, muitas vezes adotadas e descritas pelo modelo médico tradicional.

 

Palavras-chave: Habilidades psicoterapêuticas; variabilidade comportamental; desenvolvimento de repertório comportamental; Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR).