Atividade: Comunicação Oral

 “FECHEM AS PORTAS QUE LÁ VEM O LOUCO”: ESTUDO DE CASO EM QUE A ASSISTÊNCIA ERA MAIS PARTE DO PROBLEMA DO QUE DA SOLUÇÃO

 

HENRIQUE DO NASCIMENTO RICARDO

Prefeitura Municipal de Jaguaruna (SC)

 

Relato do caso clínico de um cidadão atendido pelo programa de Saúde Mental de um município catarinense, Gervásio (43). Sua moradia variava entre a casa da mãe, em uma comunidade do interior do município, e uma casa cedida a ele em outra cidade. A queixa inicial não foi do paciente, nem dos familiares, mas dos funcionários do serviço público municipal que presenciaram suas crises e que, ao não saber lidar com a situação, recorriam ao poder policial. A primeira intervenção foi realizada extra-consultório em uma das situações de crise. O relato verbal do paciente era de que estava sem medicação e, por não encontrar forma alguma de adquiri-los, foi até a administração pública municipal. Relatou que a enfermeira do posto de saúde da comunidade negou-se a agendar atendimento médico, com isso, teria ficado sem a prescrição dos seus remédios. O caso dele foi analisado à luz dos três níveis de variação e seleção propostos por Skinner, e conclui-se que, do ponto de vista filogenético, Gervásio nasceu com características que demandavam condições especiais de cuidado como, por exemplo, ter baixo nível de audição e de visão, além dos problemas neurológicos. Do ponto de vista do ambiente cultural em que viveu Gervásio, visto como “louco”, era desqualificado pelo grupo. Do ponto de vista ontogenético, embora apresentasse repertório para cuidar da sua própria saúde (tomar medicação, comparecer às consultas etc), sua presença no posto era indesejada pelas pessoas da comunidade, que o repeliam. Para Gervásio faltara que alguém – sob controle do terceiro nível de seleção – o acolhesse. Assim, foi decidido encaminhá-lo para um atendimento psicoterapêutico.  Após reuniões com a enfermeira e a descrição verbal dessas contingências de reforçamento (CR) em operação, ficou acordado que o paciente deveria ser atendido no próprio posto. O objetivo foi desenvolver comportamentos de autonomia e redução de danos, tais como: deslocar-se pelo município sem risco da internação compulsória; acessar o serviço de saúde público na sua própria comunidade; e manter vínculos com pessoas que lhe eram queridas. Os procedimentos utilizados na clínica ambulatorial foram: reforçamento do “confiar” em alguém do sistema público de saúde; reforçamento do relatar queixas que afetavam sua saúde; análise de CRs mantidas na relação com pessoas queridas da sua comunidade. O paciente foi atendido por três meses, relatando diminuição das crises no município. No entanto, Gervásio entrou em crise na outra cidade em que residia e foi internado compulsoriamente pelo juiz local, o que interrompeu o atendimento.

Palavras-chave: Saúde Mental; Sistema Único de Saúde; Crise; Redução de Danos; Autonomia.