Atividade: Comunicação oral (Estudo de caso clínico)

 

ESQUECERAM DE MIM... OS REFLEXOS DE UMA HISTÓRIA DE CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO COM ESCASSEZ DE ATENÇÃO SOCIO-AFETIVA NA VIDA DE UM INDIVÍDUO - ESTUDO DE CASO EM TERAPIA POR CONTINGÊNCIAS DE REFORÇAMENTO (TCR)

ANA CAROLINA POCAY KAMADA

Maria Isabel de A. C. Franco

ITCR – Campinas

William (13) residia na mesma casa que a mãe, Paula (42), os avós maternos e o meio-irmão (19). Os pais do cliente eram separados. Como o pai (39) de William era ausente em sua rotina, o cliente não podia contar com ele para outras funções além da financeira. Já a mãe, apesar de demonstrar afeto para com o filho em algumas situações, tinha o padrão comportamental de intervir somente diante de situações com função muito aversiva para ela; por exemplo, ela buscou a psicoterapia para o filho somente quando ele já estava há dois meses sem frequentar o Colégio e se cortando quase todos os dias. Como o avô materno frequentemente emitia comportamentos agressivos (gritava e xingava) após ingerir bebidas alcóolicas, o mesmo adquiriu função aversiva para William, o qual optava por se trancar no quarto quando o avô bebia. Com relação a avó materna, vale salientar que grande parte de seus comportamentos eram governados pelos princípios defendidos pela Igreja que frequentava, e, quando ela tentava estabelecer regras para o neto, verbalizava justificativas atreladas ao universo religioso que William dizia veementemente discordar. Tal discordância no que se refere às crenças religiosas ocasionava uma série de discussões entre avó e neto, e, na relação entre eles não existia qualquer tipo de demonstração de afeto. Foi possível identificar que a história de contingências de reforçamento (HCR) com escassez de atenção socio-afetiva, aliada a contingências de reforçamento (CR), tanto passadas, quanto atuais predominantemente coercitivas, interagiram para a instalação e manutenção de uma série de comportamentos de risco. Dentre as dificuldades de William identificadas, destacavam-se: (a) não enfrentar situações aversivas de forma desejada, recorrendo a comportamentos de risco, tais como os de autolesão, isolamento, disfunção alimentar, ideações suicidas e relatos sobre alucinações auditivas; (b) baixa tolerância à frustração; (c) déficit na discriminação das CR em operação; (d) comportamentos topograficamente intensos e indesejados, com função de produzir atenção, tais como pintar o cabelo de cores não usuais, jeito de falar e se movimentar considerados exagerados pelos familiares, dizer ser ateu para a família que era muito religiosa etc. Os objetivos psicoterapêuticos compreenderam a ampliação do repertório comportamental do cliente, principalmente no que se refere a sua capacidade de discriminação das CR em operação e ao engajamento em atividades desejadas. Para tal, a psicoterapeuta utilizou-se de procedimentos de reforçamento diferencial, uso de diagramas, modelação, modelagem, apresentação de instruções verbais, descrições das CR em operação e orientações para a mãe. Foram obtidos alguns resultados esperados: redução da frequência dos comportamentos de risco; engajamento em comportamentos de estudo; melhora na discriminação das CR em operação; aumento da tolerância à frustração. Alguns destes resultados foram consistentes e outros parciais a depender da dificuldade do cliente e do custo que a resposta tinha para ele. Mediante encerramento das atividades da psicoterapeuta na instituição, o cliente foi encaminhado para outra analista do comportamento, a fim de dar continuidade ao processo.

Palavras-chave: Terapia por Contingências de Reforçamento (TCR); Contingências de Reforçamento Coercitivas; comportamentos autolesivos; atenção social; atenção socio-afetiva.